por Sidnei Jr.
Na abordagem Reggio Emilia, aprender não é um ato de receber informações prontas, mas um processo vivo de investigação. As crianças são vistas como sujeitos competentes, curiosos e capazes de construir conhecimento a partir de suas próprias perguntas. É nesse contexto que surgem os projetos investigativos: percursos de aprendizagem que nascem do olhar atento dos educadores e da escuta sensível às inquietações das crianças.
O ponto de partida: a curiosidade infantil
Um projeto raramente começa com um plano fechado. Muitas vezes, ele nasce de uma pergunta aparentemente simples: “Por que a sombra muda de lugar?”, “Como a água vira gelo?”, “De onde vem o som dos pássaros?”. Essas indagações, que poderiam passar despercebidas em um cotidiano apressado, tornam-se sementes de investigação quando acolhidas pelo educador.
A escuta ativa é, portanto, o primeiro passo. Ao valorizar a curiosidade da criança, o professor legitima sua voz e abre espaço para que ela se torne protagonista do próprio aprendizado.
O papel do educador: mediador e pesquisador
Nos projetos investigativos, o educador não é quem traz respostas prontas, mas quem ajuda a formular novas perguntas, amplia horizontes e oferece recursos para a exploração. Ele atua como mediador, pesquisador e parceiro de jornada.
Isso significa organizar o ambiente de forma intencional, disponibilizar materiais variados, propor experiências que provoquem novas descobertas e, sobretudo, documentar o processo. A documentação pedagógica — registros fotográficos, falas das crianças, produções artísticas — não é apenas memória, mas ferramenta de reflexão que permite compreender como o pensamento infantil se transforma ao longo do tempo.
O ambiente como terceiro educador
Outro aspecto essencial é o espaço. Na filosofia Reggio Emilia, o ambiente é considerado um “terceiro educador”. Um canto iluminado pode se transformar em laboratório de sombras; um jardim, em observatório de insetos; um ateliê, em espaço de expressão múltipla.
Quando o ambiente é preparado para favorecer a investigação, ele convida a criança a experimentar, levantar hipóteses, testar ideias e compartilhar descobertas com os colegas. Assim, o espaço físico se torna parte ativa do processo de aprendizagem.
O valor do percurso, não apenas do resultado
Um projeto investigativo não busca chegar rapidamente a uma resposta final. O mais importante é o percurso: as hipóteses levantadas, os erros que se transformam em novas perguntas, as conexões feitas entre diferentes áreas do conhecimento.
Ao longo desse caminho, as crianças desenvolvem habilidades cognitivas, sociais e emocionais: aprendem a argumentar, a ouvir o outro, a negociar significados, a lidar com a frustração e a celebrar conquistas coletivas.
Conclusão: aprender como ato de autoria
Quando dizemos que as crianças aprendem investigando, estamos afirmando que elas são autoras de seu próprio conhecimento. Os projetos investigativos revelam que a escola pode ser um espaço de pesquisa viva, onde cada pergunta abre portas para novas descobertas.
Mais do que conteúdos, o que se constrói é uma postura diante do mundo: a de quem observa com atenção, questiona com coragem e aprende com entusiasmo. E talvez esse seja o maior legado da abordagem Reggio Emilia — cultivar em cada criança a certeza de que suas ideias importam e de que aprender é, sempre, um ato de autoria.
