por Sidnei Jr.
A imagem tradicional do professor como detentor do conhecimento, responsável por transmiti-lo de forma linear aos alunos, vem sendo questionada há décadas. Hoje, cada vez mais, educadores se reconhecem como pesquisadores em sala de aula, protagonistas de um processo de investigação contínua que não se limita a conteúdos prontos, mas se abre para a curiosidade, a experimentação e a construção coletiva de saberes. Essa mudança de perspectiva não apenas transforma a prática pedagógica, como também redefine a relação entre adultos e crianças no espaço escolar.
Ser professor-pesquisador significa assumir que o conhecimento não é estático. A cada pergunta inesperada, a cada hipótese levantada por uma criança, abre-se uma oportunidade de investigação. Nesse sentido, o educador não é apenas quem ensina, mas quem aprende junto. Essa postura exige humildade intelectual: reconhecer que não se tem todas as respostas e que o processo de busca é tão ou mais importante do que a solução final. Ao lado das crianças, o professor explora caminhos, testa possibilidades e descobre novas formas de compreender o mundo.
Essa abordagem dialoga com concepções contemporâneas de educação, como a pedagogia da escuta e a aprendizagem baseada em projetos. Quando o professor se coloca como pesquisador, ele valoriza a curiosidade infantil e legitima o protagonismo das crianças. Em vez de silenciar perguntas “fora do roteiro”, ele as acolhe como pontos de partida para novas investigações. Assim, a sala de aula deixa de ser um espaço de mera transmissão e se torna um laboratório vivo, onde todos são convidados a observar, registrar, analisar e refletir.
O impacto dessa postura vai além do aprendizado acadêmico. Ao ver o professor engajado em pesquisar, as crianças compreendem que o conhecimento é dinâmico e que aprender é um processo contínuo. Elas percebem que errar faz parte da investigação, que dúvidas são motores de descoberta e que a colaboração amplia horizontes. Essa vivência contribui para formar cidadãos críticos, criativos e capazes de lidar com a complexidade do mundo contemporâneo.
No entanto, assumir-se como pesquisador não é tarefa simples. Exige tempo para planejar, registrar e refletir sobre a prática. Demanda abertura para o imprevisível e disposição para rever certezas. Também implica em construir uma cultura escolar que valorize a investigação, oferecendo condições para que professores e alunos possam experimentar sem medo de falhar. É um desafio institucional, mas também uma escolha pessoal: cada educador precisa decidir se está disposto a se colocar nesse lugar de aprendiz permanente.
Ao final, o professor-pesquisador não é aquele que abdica de sua responsabilidade de ensinar, mas quem amplia essa função ao incluir o ato de aprender junto como parte essencial da docência. Ele se torna mediador de experiências, incentivador de perguntas e parceiro de descobertas. Essa postura não diminui sua autoridade; ao contrário, fortalece sua credibilidade, pois mostra às crianças que o verdadeiro saber nasce da curiosidade e da investigação constante.
Em tempos de mudanças rápidas e incertezas, talvez essa seja a maior lição que a escola pode oferecer: que aprender é um caminho sem fim, e que professores e alunos, lado a lado, podem trilhar esse percurso com entusiasmo, coragem e abertura para o novo.
